terça-feira, 9 de setembro de 2014


Muito cedo levanto
para acordar o dia,
das aves ouço o canto
dos ventos um bom dia.

É nas calmas manhãs
que encontro meu sossego,
plantar e criar bichos
sempre foi o meu emprego.

Não me vejo em cidades,
grandes bares ou praças,
aqui tenho utilidade,
lá mal sirvo de graça.

Em caminhos de terra,
arames, pedras, telhas,
meus passos trilham guerras
que são bem mais verdadeiras.

A este lugar pertenço
feito uma planta no chão,
um pico alto no vão
livre das contas do tempo.

Sigo minha tradição
e por aqui permaneço,
as noites vêm e vão,
mas eu não envelheço.

David Henrique


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Suvenir



Não me aguardes neste lugar
por onde não irei passar

fuja, em quanto há tempo
e se livre desse tormento

já não há em mim vontade
de voltar a esta cidade

o sangue já lava calçadas
a carne ao sol é queimada

as faces são modeláveis
as fases são descartáveis

o piso é movediço
o encontro é um sumiço

as plantas são venenosas
as flores são perigosas

as cores perderam a tinta
e tudo se enxerga em cinza

o afago do vento corta
galhos de árvores mortas.

David Henrique

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Explorando terras movediças


Procuro demais
não consigo achar
quanto mais busco
mais tento buscar

o espaço é vasto
a oferta é grande
a certeza é pouca
a dúvida constante

tiros não certeiros
voltam ao atirador,
flores no enterro
não são dadas por amor

o mundo segue cheio
de seres que esvaziam
os céus correm cheios
de coisas que arrepiam

E cá estou, à procura
de não sei o que porra,
talvez finde esta loucura
até o dia em que eu morra.

(David Henrique)

terça-feira, 17 de junho de 2014

Palavras sem ordem




Dura e dita,
Grita a cura:
Abaixo a velha,
A nova, a puta
Ditadura!

(David Henrique em "Útero de retratos mundanos")

terça-feira, 10 de junho de 2014

Profanação religiosa



Escondeu-se atrás da igreja
e mal abriu a bíblia,
não há fé que se teça
baseada em metonímia.

Prega a palavra apócrifa
mas sua ação é hipócrita,

nem padre nem pastor,
não há vaga no céu
para qualquer impostor.

Porém há salvação
um pouco abaixo do chão.

(David Henrique) 
 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Contracapa



Por trás deste sol
que queima os olhos

há noites e auroras
com riscos de luz.

Por trás do mundo
há um espaço:

perene, fecundo,
feito de aço.

Por trás do poeta
há um abismo:

de vidas e metas
sem eufemismo.

(David Henrique)