terça-feira, 20 de maio de 2014

Reflexo Complexo




Às vezes, é necessário atirar
As verdades contra o espelho.

Sentir o narciso se esmagar
Com o fardo das incoerências.

Ouvir gritos fiéis da consciência
Ensurdecendo aos sentimentos.

Sem esquecer os movimentos
Gerados por mera inconsequência.

David Henrique in Útero de retratos mundanos


A obra completa encontra-se disponível em: 
 

domingo, 18 de maio de 2014

Poema para Jane

225 dias sob a grama
e você sabe mais do que eu.

Há tempos tomaram seu sangue,
Você é um pau seco em uma cesta.

É assim que funciona?

Nesta sala
as horas de amor
ainda fazem sombras.

Quando você partiu
você levou quase
tudo.

Eu me ajoelho à noite
aos tigres
que não me deixam só.

O que você foi
não vai acontecer de novo.

Os tigres me encontraram
E eu não me importo mais.

(Charles Bukowski)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Há sempre uma vela acesa no meio do apagão




A cada lágrima caída
um litro de sangue ferve,

a cada palavra cuspida
um espaço em branco se perde,

a cada poema composto
um pedaço da dor some,

a cada música composta
menos fastio e mais fome,

a cada hora refletida
menos duas horas perdidas,

a cada hora de lamento
mais duas horas sem tormento,

a cada rosa que é partida
um jardim inteiro é desvelado,

a cada pássaro matado
uma voz deixa de ser ouvida.

(David Henrique)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Retranca ao que se perdeu



Retranca ao que se perdeu


Tínhamos um mundo nas mãos
que era imenso como um sol,
e mesmo denso, foi efêmero
feito a vida de um girassol.

Entre visões e fantasias
fui me perdendo a cada dia.

Palavras lançadas no ar:
versos como balas perdidas,
promessas ao fundo do mar.

Os pedaços de vidro sangram
como chagas que não estancam.

(David Henrique)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Crônica pra não sonhar

Crônica pra não sonhar


Ainda não consigo acreditar que foi tudo um sonho. Desses que acordamos na melhor parte. Desses que sonhamos com os olhos abertos e temos a ligeira impressão de que é real. Eu sempre achei que estava sonhando, ela me garantiu que não, e sonhando ou não, me deixei levar pelo caminho que surgia. Desfiz qualquer linha entre ilusão e realidade. E tudo me pareceu muito real: dos sentidos físicos aos psicológicos, das noites passadas às utopias futuras, não restavam dúvidas sobre a concretude do que estava acontecendo. Universos foram criados dentro desta viagem, fui conduzido como uma folha caída sobre o curso de um rio, como uma criança numa venda de doces, como um poeta a vagar numa floresta de sonhos lúcidos. Minha alma atingiu todos os ápices possíveis. Não faltou tinta na caneta, não faltou açúcar no café, não faltou fome antropofágica, não faltou amor escrito com sangue na testa.

Faltou fôlego de uma hora pra outra.

E sem força, a luz foi escurecendo, tudo foi adormecendo, morrendo subitamente, como um pássaro azul que leva um tiro em pleno voo. Do nada fui obrigado a despertar caindo da cama, tomando um choque de realidade, uma sensação parecida com a de um bebê ao de sair do útero da mãe.

Para onde foi toda a magia ainda é um mistério, para onde foi o Sol, o Céu, e os Universos criados também. Há hipóteses (que pouco importam). Se foi mesmo um sonho eu não sei, mas sei que é o único que me recordo de todas as cenas.

Agora durmo com medo de sonhar, e acordo dançando uma valsa com a ilusão.


(David Henrique)




quarta-feira, 16 de abril de 2014

Tirando uma espinha de peixe da guela



A face no face 


A moda está na tela,
em espaço virtual,
não há face, mas há face:
eis um mundo social.

Ninguém quer saber de insight,
posta a foto, pede um like.

Todo mundo é popular:
mil amigos, mil curtidas,
a tendência é aumentar.

É uma pena que o diário
foi jogado no armário.

(David Henrique)

sexta-feira, 14 de março de 2014

Em defesa de um poema sem cabrestos



Pela poesia longe das gaiolas,
pela poesia que cospe fogo,
pela poesia que traz radiolas,
pela poesia que traz o novo.

Pela poesia dita nos bares,
pela poesia que parece míssil.
Pela poesia que vaga nos ares,
pela poesia que não é difícil.

Pela poesia sem ditadores,
pela poesia sem impostores
pela poesia sem panelinhas.

Pela poesia que é pela poesia
e não está participando de rankings,
meu grito é pela poesia de todos os dias.

(David Henrique)